Ela tinha tudo para ser perfeita e foi, até provar o contrário. Linda. Olhos azuis, cara de boneca, maçãs do rosto naturalmente rosadas. Linda. Chegava sempre atrasada nas aulas, abria o fichário rosa do ursinho Poh e tirava da bolsa um estojo com canetas coloridas. Laranja para o título; vermelho para sublinhá-lo, verde para asterisco; azul para a flechinha... Cada cor para uma função definida.Pareceria um exagero, mas ela é aluna do curso de RP. Normal.
Se não fossem as unhas roídas ela estaria envolta numa redoma, alta demais para ter contato comigo. E foram as unhas dela que abriram espaço à conversa. Foi ela quem começou: “Tu também rói?” Semelhança encontrada, agora já eramos íntimos. Lá pelo meio da aula ví que ela estava fervendo os miolos. “Alguém tem uma calculadora?” Eu, que nem tenho celular, achei rápido o raciocínio de duas gurias que lhe ofereceram os aparelhos (Agora eles se chamam Iphones e já tem vida própria, mas eu demorei para lembrar que eles calculavam). Ela até tentou, mas os celulares não tinham a tecla da porcentagem. “Usa a caneta!”: Foi a grande idéia do pré-histórico aqui.
Sem nenhum constrangimento, ela disse que não sabia fazer. Pensei: “uma pessoa que rói as unhas merece uma segunda chance!” Peguei a caneta e, para o espanto das RP´s, rascunhei uma regra de três, desalinhadamente, no meio de uma folha qualquer do meu bloco de anotações - porque jornalistas não sabem usar cadernos, nem alinhar textos à mão. Também não precisam de blocos, porque anotam somente 10% do que é dito. O verso de um extrato de banco é suficiente para nós. Mas os RP´s precisam de cadernos de 500 folhas, cartolinas, bobinas inteiras de papel. E fazem bom uso. Experimente anotar desde o “boa noite” até o “estão dispensados”. Você, jornalista, destruiria uma floresta amazônica por semestre.
Continuando...Eu, que faço parte da espécie humana que considera a soma e a subtração operações suficientes, pois dividir e multiplicar já é para o nível superior, consegui ensinar a regra de três. Calculei a porcentagem que ela precisava e, como o papai pássaro que estufa o peito ao ver o filhote alçar o primeiro vôo, vi ela rabiscar, alinhadamente na última folha do fichário - dedicada a rascunhos e desenhos de borboletinhas e flores – o primeiro cálculo depois da grande lição. Eis a decepção: ela tentava, com certa dificuldade, calcular quanto é 50% de 600. Ninguém é perfeito, mas o cérebro há de ser a parte mais linda do corpo.