quinta-feira, 23 de agosto de 2007

à contragosto

Não é inverno nem verão. Não tem o colorido da primavera nem a beleza do outono. As coisas são feias em agosto. Esse mês, que não sabe a que estação pertence, decide por fazer as quatro no mesmo dia, todos os dias.
Mas sempre tem aquele que insiste em achar o lado bom das coisas. Na tentativa frustrada de amenizar a rejeição às intempéries, um desses me disse amistosamente: "Agosto é para todos os gostos". Para contrariar na mesma rima: "Agosto para o meu desgosto". Este mês não tem lado bom. Definitivamente.
Agosto encerra as férias escolares de inverno. Tudo bem, dirão que fevereiro e março também fazem esse papel sujo. Mas estes ainda têm restinho de praia, sol e carnaval; Agosto não tem feriado. Até inventaram uma data comemorativa familiar para amenizar o terror e agitar o comércio. Mas até o coelhinho da páscoa vende mais do que os pais. Agosto consegue ser inconveniente até no exercício de descobrir, nos ossos saltados da mão, os meses que têm 30 ou 31 dias. Sim, porque é em agosto que se volta ao primeiro ossinho e a contagem complica.
Para quem, como eu, esteve de férias do trabalho em julho, recebeu o que devia e gastou adiantado também, agosto atenua a sua impertinência. É meu mês do vermelho e, por isso, parece durar uma eternidade.
Crendices populares dizem que este tal Mês do Cachorro Louco é tempo de azar, mau agouro. Segundo o matriarcado da minha família, agosto também vem para levar os que estão mais pra lá do que pra cá. Esses moribundos, se passarem pelo Portal de Agosto, se livram da morte por mais um bom tempo. Mas é difícil, muito difícil passar.
Portanto, venha logo setembro. Traga seu clima ameno, seus feriados e o meu salário. Mas venha depressa. Porque eu não sei se passo pelo Portal.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

olimpo (ou divino prazer)

Abaixo o amor
Desejo de Zeus
Morte à Afrodite
Adeus ao mito na terra do mito
Amor extinto, agora só instinto

Da àgua pro vinho
Na vinha de Bacco
Tudo é bacana, bacanal
Corpo sem alma
Noite de Carnaval

Physique perde a razão
Mas ainda há setas de Eros
Quase sempre são erros
Outrora de coração, agora por diversão
Um novo hobby de matar à flechadas

As ninfas tornam-se ninfo
Maníacas, doidas, varridas
Hades emerge ao trono
E deuses ardem felizes
Num paraíso de chamas, sem rumo, sem dono

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

midiologia comparada

Ele tinha uma aparência àspera. No rosto, uma expresão plastificada. Uma dicção tão perfeita quanto dispensável, porque os lábios descreviam tão bem os movimentos exigidos pelas palavras que, sem emitir qualquer som, ele seria compreendido.
Era frio, sombrio, arrogante e debochado. Em pouco tempo, como num discurso de posse, decretou o fim da naturalidade das relações humanas. Em outras palavras, dise que o homem só se relaciona por interese, é vil e falso. Disse ainda que o bem-estar das pessoas depende, definitivamente, do mais reles reconhecimento dos indivíduos de poder (clase na qual ele parecia Deus).
Os dez amedontrados alunos de Midiologia Comparada, observavam encolhidos, pasmos de se verem subjulgados à uma supremacia rude e perturbada. Quanto tentou ser engraçado, foi para debochar dos menores que sí. Ao arrancar sorrisos confusos de "esse cara é real?", debochou novamente: "Esses sorrisos provam que estou conquistando vocês. É a minha capacidade apurada de persuasão. Mas isso - e deu ênfase - é pura técnica". Aí, nós, os mendigos de afeto dos poderosos, murchamos em nossas classes.
Com tantos absurdos, não sei como pude somente assimilar seus equívocos sem sentir asco, medo ou pena. Minha inércia em relação aos seus delírios não me tornou baixo como ele propunha, não me fez admirá-lo nem odiálo. Durante todo o tempo, fiz comparações, como a própria cadeira propõe. Confrontei a sua fisionomia com a do patinador Marcel Stürmer e a espetacularização da sua insanidade com a de Nelson Rodrigues. Aos poucos, me perdi distraído com o som dos "s" que ele pronunciava. Parecia uma batida de pratos da bateria, quando anuncia o fim da música.

o colono vai à cidade

Fui à São Paulo nas férias. Sim, São Paulo, pode ir destorcendo o nariz. Me disseram para não ir. Disseram que é sujo, fedido, tumultuado, perigoso, blábláblá. Mas fui, contrariando a todos que me anularam qualquer possibilidade de descanso no Inferno Brasileiro. (Mas se eu quisesse descansar, teria ido ficar de molho numa piscina natural de águas termais. Eu e as uvas passas que lá habitam).
Vou poupá-los de descrições aprofundadas sobre o drama do caos aéreo. Basta dizer três coisas: passar dois dias num aeroporto ouvindo lamúrias e divagações sobre o desastre de Congonhas, enfiado numa poltrona desconfortável, não é nada agradável; ser informado por um funcionário de sua empresa aérea que, se fosse você, voltaria pra casa é um tanto desolador e, finalmente, quando consegue embarcar, sentar perto de alguém com problema de flatulência é um azar sem tamanho.
Quanto a cidade, é tudo o que me falaram de mal somado a muito de bom, o que as pessoas não costumam comentar. Têm barzinho legal e gente bacana aos montes. Tem roupa barata, calçado barato, acessórios baratos, perfumes baratos, eletronicos baratos e...ó o rapa. Tem gente comendo milho, abacaxi e yakisoba na rua. Mas ninguém fica reparando nem fazendo cara de nojo.
Para quem saiu pra ver arte como eu, o lugar é o paraíso. Tem Portinaris, Tarsilas, Toulouse-Lautrecs e até o Palácio de Versailles disponíveis à preços baixos, com desconto para estudantes. Tem peças de teatro pra escolher conforme o humor e o bolso. Não se respira só poluição mas também arte: no metrô, nas calçadas e em todo lugar.
Sem qualquer pretenção de repouso, cansei o corpo para aliviar a mente. Assim que voltei ao trabalho, senti um alívio por saber que um único ônibus me levaria ao destino em menos de uma hora. Mas deu um certo desespero. Percebi que fazer programas como o de entrar na "casa" de Clarice Lispector (no Museu da Língua Portuguesa) e futricar em suas gavetas para ler desde o original de Água Viva, com correções à caneta, até os rabiscos e bilhetes do filho, recados de geladeira, só quando eu voltar lá ou ir para um lugar menos bucólico do que a Pérola das Colônias. Enquanto isso, me contento com a Festa da Uva. Um brinde! Com vinho, salame, queijo e polenta.