quarta-feira, 8 de agosto de 2007

o colono vai à cidade

Fui à São Paulo nas férias. Sim, São Paulo, pode ir destorcendo o nariz. Me disseram para não ir. Disseram que é sujo, fedido, tumultuado, perigoso, blábláblá. Mas fui, contrariando a todos que me anularam qualquer possibilidade de descanso no Inferno Brasileiro. (Mas se eu quisesse descansar, teria ido ficar de molho numa piscina natural de águas termais. Eu e as uvas passas que lá habitam).
Vou poupá-los de descrições aprofundadas sobre o drama do caos aéreo. Basta dizer três coisas: passar dois dias num aeroporto ouvindo lamúrias e divagações sobre o desastre de Congonhas, enfiado numa poltrona desconfortável, não é nada agradável; ser informado por um funcionário de sua empresa aérea que, se fosse você, voltaria pra casa é um tanto desolador e, finalmente, quando consegue embarcar, sentar perto de alguém com problema de flatulência é um azar sem tamanho.
Quanto a cidade, é tudo o que me falaram de mal somado a muito de bom, o que as pessoas não costumam comentar. Têm barzinho legal e gente bacana aos montes. Tem roupa barata, calçado barato, acessórios baratos, perfumes baratos, eletronicos baratos e...ó o rapa. Tem gente comendo milho, abacaxi e yakisoba na rua. Mas ninguém fica reparando nem fazendo cara de nojo.
Para quem saiu pra ver arte como eu, o lugar é o paraíso. Tem Portinaris, Tarsilas, Toulouse-Lautrecs e até o Palácio de Versailles disponíveis à preços baixos, com desconto para estudantes. Tem peças de teatro pra escolher conforme o humor e o bolso. Não se respira só poluição mas também arte: no metrô, nas calçadas e em todo lugar.
Sem qualquer pretenção de repouso, cansei o corpo para aliviar a mente. Assim que voltei ao trabalho, senti um alívio por saber que um único ônibus me levaria ao destino em menos de uma hora. Mas deu um certo desespero. Percebi que fazer programas como o de entrar na "casa" de Clarice Lispector (no Museu da Língua Portuguesa) e futricar em suas gavetas para ler desde o original de Água Viva, com correções à caneta, até os rabiscos e bilhetes do filho, recados de geladeira, só quando eu voltar lá ou ir para um lugar menos bucólico do que a Pérola das Colônias. Enquanto isso, me contento com a Festa da Uva. Um brinde! Com vinho, salame, queijo e polenta.

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