Ela tinha tudo para ser perfeita e foi, até provar o contrário. Linda. Olhos azuis, cara de boneca, maçãs do rosto naturalmente rosadas. Linda. Chegava sempre atrasada nas aulas, abria o fichário rosa do ursinho Poh e tirava da bolsa um estojo com canetas coloridas. Laranja para o título; vermelho para sublinhá-lo, verde para asterisco; azul para a flechinha... Cada cor para uma função definida.Pareceria um exagero, mas ela é aluna do curso de RP. Normal.
Se não fossem as unhas roídas ela estaria envolta numa redoma, alta demais para ter contato comigo. E foram as unhas dela que abriram espaço à conversa. Foi ela quem começou: “Tu também rói?” Semelhança encontrada, agora já eramos íntimos. Lá pelo meio da aula ví que ela estava fervendo os miolos. “Alguém tem uma calculadora?” Eu, que nem tenho celular, achei rápido o raciocínio de duas gurias que lhe ofereceram os aparelhos (Agora eles se chamam Iphones e já tem vida própria, mas eu demorei para lembrar que eles calculavam). Ela até tentou, mas os celulares não tinham a tecla da porcentagem. “Usa a caneta!”: Foi a grande idéia do pré-histórico aqui.
Sem nenhum constrangimento, ela disse que não sabia fazer. Pensei: “uma pessoa que rói as unhas merece uma segunda chance!” Peguei a caneta e, para o espanto das RP´s, rascunhei uma regra de três, desalinhadamente, no meio de uma folha qualquer do meu bloco de anotações - porque jornalistas não sabem usar cadernos, nem alinhar textos à mão. Também não precisam de blocos, porque anotam somente 10% do que é dito. O verso de um extrato de banco é suficiente para nós. Mas os RP´s precisam de cadernos de 500 folhas, cartolinas, bobinas inteiras de papel. E fazem bom uso. Experimente anotar desde o “boa noite” até o “estão dispensados”. Você, jornalista, destruiria uma floresta amazônica por semestre.
Continuando...Eu, que faço parte da espécie humana que considera a soma e a subtração operações suficientes, pois dividir e multiplicar já é para o nível superior, consegui ensinar a regra de três. Calculei a porcentagem que ela precisava e, como o papai pássaro que estufa o peito ao ver o filhote alçar o primeiro vôo, vi ela rabiscar, alinhadamente na última folha do fichário - dedicada a rascunhos e desenhos de borboletinhas e flores – o primeiro cálculo depois da grande lição. Eis a decepção: ela tentava, com certa dificuldade, calcular quanto é 50% de 600. Ninguém é perfeito, mas o cérebro há de ser a parte mais linda do corpo.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
à contragosto
Não é inverno nem verão. Não tem o colorido da primavera nem a beleza do outono. As coisas são feias em agosto. Esse mês, que não sabe a que estação pertence, decide por fazer as quatro no mesmo dia, todos os dias.
Mas sempre tem aquele que insiste em achar o lado bom das coisas. Na tentativa frustrada de amenizar a rejeição às intempéries, um desses me disse amistosamente: "Agosto é para todos os gostos". Para contrariar na mesma rima: "Agosto para o meu desgosto". Este mês não tem lado bom. Definitivamente.
Agosto encerra as férias escolares de inverno. Tudo bem, dirão que fevereiro e março também fazem esse papel sujo. Mas estes ainda têm restinho de praia, sol e carnaval; Agosto não tem feriado. Até inventaram uma data comemorativa familiar para amenizar o terror e agitar o comércio. Mas até o coelhinho da páscoa vende mais do que os pais. Agosto consegue ser inconveniente até no exercício de descobrir, nos ossos saltados da mão, os meses que têm 30 ou 31 dias. Sim, porque é em agosto que se volta ao primeiro ossinho e a contagem complica.
Para quem, como eu, esteve de férias do trabalho em julho, recebeu o que devia e gastou adiantado também, agosto atenua a sua impertinência. É meu mês do vermelho e, por isso, parece durar uma eternidade.
Crendices populares dizem que este tal Mês do Cachorro Louco é tempo de azar, mau agouro. Segundo o matriarcado da minha família, agosto também vem para levar os que estão mais pra lá do que pra cá. Esses moribundos, se passarem pelo Portal de Agosto, se livram da morte por mais um bom tempo. Mas é difícil, muito difícil passar.
Portanto, venha logo setembro. Traga seu clima ameno, seus feriados e o meu salário. Mas venha depressa. Porque eu não sei se passo pelo Portal.
Mas sempre tem aquele que insiste em achar o lado bom das coisas. Na tentativa frustrada de amenizar a rejeição às intempéries, um desses me disse amistosamente: "Agosto é para todos os gostos". Para contrariar na mesma rima: "Agosto para o meu desgosto". Este mês não tem lado bom. Definitivamente.
Agosto encerra as férias escolares de inverno. Tudo bem, dirão que fevereiro e março também fazem esse papel sujo. Mas estes ainda têm restinho de praia, sol e carnaval; Agosto não tem feriado. Até inventaram uma data comemorativa familiar para amenizar o terror e agitar o comércio. Mas até o coelhinho da páscoa vende mais do que os pais. Agosto consegue ser inconveniente até no exercício de descobrir, nos ossos saltados da mão, os meses que têm 30 ou 31 dias. Sim, porque é em agosto que se volta ao primeiro ossinho e a contagem complica.
Para quem, como eu, esteve de férias do trabalho em julho, recebeu o que devia e gastou adiantado também, agosto atenua a sua impertinência. É meu mês do vermelho e, por isso, parece durar uma eternidade.
Crendices populares dizem que este tal Mês do Cachorro Louco é tempo de azar, mau agouro. Segundo o matriarcado da minha família, agosto também vem para levar os que estão mais pra lá do que pra cá. Esses moribundos, se passarem pelo Portal de Agosto, se livram da morte por mais um bom tempo. Mas é difícil, muito difícil passar.
Portanto, venha logo setembro. Traga seu clima ameno, seus feriados e o meu salário. Mas venha depressa. Porque eu não sei se passo pelo Portal.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
olimpo (ou divino prazer)
Abaixo o amorDesejo de Zeus
Morte à Afrodite
Adeus ao mito na terra do mito
Amor extinto, agora só instinto
Da àgua pro vinho
Na vinha de Bacco
Tudo é bacana, bacanal
Corpo sem alma
Noite de Carnaval
Physique perde a razão
Mas ainda há setas de Eros
Quase sempre são erros
Outrora de coração, agora por diversão
Um novo hobby de matar à flechadas
As ninfas tornam-se ninfo
Maníacas, doidas, varridas
Hades emerge ao trono
E deuses ardem felizes
Num paraíso de chamas, sem rumo, sem dono
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
midiologia comparada
Ele tinha uma aparência àspera. No rosto, uma expresão plastificada. Uma dicção tão perfeita quanto dispensável, porque os lábios descreviam tão bem os movimentos exigidos pelas palavras que, sem emitir qualquer som, ele seria compreendido.
Era frio, sombrio, arrogante e debochado. Em pouco tempo, como num discurso de posse, decretou o fim da naturalidade das relações humanas. Em outras palavras, dise que o homem só se relaciona por interese, é vil e falso. Disse ainda que o bem-estar das pessoas depende, definitivamente, do mais reles reconhecimento dos indivíduos de poder (clase na qual ele parecia Deus).
Os dez amedontrados alunos de Midiologia Comparada, observavam encolhidos, pasmos de se verem subjulgados à uma supremacia rude e perturbada. Quanto tentou ser engraçado, foi para debochar dos menores que sí. Ao arrancar sorrisos confusos de "esse cara é real?", debochou novamente: "Esses sorrisos provam que estou conquistando vocês. É a minha capacidade apurada de persuasão. Mas isso - e deu ênfase - é pura técnica". Aí, nós, os mendigos de afeto dos poderosos, murchamos em nossas classes.
Com tantos absurdos, não sei como pude somente assimilar seus equívocos sem sentir asco, medo ou pena. Minha inércia em relação aos seus delírios não me tornou baixo como ele propunha, não me fez admirá-lo nem odiálo. Durante todo o tempo, fiz comparações, como a própria cadeira propõe. Confrontei a sua fisionomia com a do patinador Marcel Stürmer e a espetacularização da sua insanidade com a de Nelson Rodrigues. Aos poucos, me perdi distraído com o som dos "s" que ele pronunciava. Parecia uma batida de pratos da bateria, quando anuncia o fim da música.
Era frio, sombrio, arrogante e debochado. Em pouco tempo, como num discurso de posse, decretou o fim da naturalidade das relações humanas. Em outras palavras, dise que o homem só se relaciona por interese, é vil e falso. Disse ainda que o bem-estar das pessoas depende, definitivamente, do mais reles reconhecimento dos indivíduos de poder (clase na qual ele parecia Deus).
Os dez amedontrados alunos de Midiologia Comparada, observavam encolhidos, pasmos de se verem subjulgados à uma supremacia rude e perturbada. Quanto tentou ser engraçado, foi para debochar dos menores que sí. Ao arrancar sorrisos confusos de "esse cara é real?", debochou novamente: "Esses sorrisos provam que estou conquistando vocês. É a minha capacidade apurada de persuasão. Mas isso - e deu ênfase - é pura técnica". Aí, nós, os mendigos de afeto dos poderosos, murchamos em nossas classes.
Com tantos absurdos, não sei como pude somente assimilar seus equívocos sem sentir asco, medo ou pena. Minha inércia em relação aos seus delírios não me tornou baixo como ele propunha, não me fez admirá-lo nem odiálo. Durante todo o tempo, fiz comparações, como a própria cadeira propõe. Confrontei a sua fisionomia com a do patinador Marcel Stürmer e a espetacularização da sua insanidade com a de Nelson Rodrigues. Aos poucos, me perdi distraído com o som dos "s" que ele pronunciava. Parecia uma batida de pratos da bateria, quando anuncia o fim da música.
o colono vai à cidade
Fui à São Paulo nas férias. Sim, São Paulo, pode ir destorcendo o nariz. Me disseram para não ir. Disseram que é sujo, fedido, tumultuado, perigoso, blábláblá. Mas fui, contrariando a todos que me anularam qualquer possibilidade de descanso no Inferno Brasileiro. (Mas se eu quisesse descansar, teria ido ficar de molho numa piscina natural de águas termais. Eu e as uvas passas que lá habitam).
Vou poupá-los de descrições aprofundadas sobre o drama do caos aéreo. Basta dizer três coisas: passar dois dias num aeroporto ouvindo lamúrias e divagações sobre o desastre de Congonhas, enfiado numa poltrona desconfortável, não é nada agradável; ser informado por um funcionário de sua empresa aérea que, se fosse você, voltaria pra casa é um tanto desolador e, finalmente, quando consegue embarcar, sentar perto de alguém com problema de flatulência é um azar sem tamanho.
Quanto a cidade, é tudo o que me falaram de mal somado a muito de bom, o que as pessoas não costumam comentar. Têm barzinho legal e gente bacana aos montes. Tem roupa barata, calçado barato, acessórios baratos, perfumes baratos, eletronicos baratos e...ó o rapa. Tem gente comendo milho, abacaxi e yakisoba na rua. Mas ninguém fica reparando nem fazendo cara de nojo.
Para quem saiu pra ver arte como eu, o lugar é o paraíso. Tem Portinaris, Tarsilas, Toulouse-Lautrecs e até o Palácio de Versailles disponíveis à preços baixos, com desconto para estudantes. Tem peças de teatro pra escolher conforme o humor e o bolso. Não se respira só poluição mas também arte: no metrô, nas calçadas e em todo lugar.
Sem qualquer pretenção de repouso, cansei o corpo para aliviar a mente. Assim que voltei ao trabalho, senti um alívio por saber que um único ônibus me levaria ao destino em menos de uma hora. Mas deu um certo desespero. Percebi que fazer programas como o de entrar na "casa" de Clarice Lispector (no Museu da Língua Portuguesa) e futricar em suas gavetas para ler desde o original de Água Viva, com correções à caneta, até os rabiscos e bilhetes do filho, recados de geladeira, só quando eu voltar lá ou ir para um lugar menos bucólico do que a Pérola das Colônias. Enquanto isso, me contento com a Festa da Uva. Um brinde! Com vinho, salame, queijo e polenta.
Vou poupá-los de descrições aprofundadas sobre o drama do caos aéreo. Basta dizer três coisas: passar dois dias num aeroporto ouvindo lamúrias e divagações sobre o desastre de Congonhas, enfiado numa poltrona desconfortável, não é nada agradável; ser informado por um funcionário de sua empresa aérea que, se fosse você, voltaria pra casa é um tanto desolador e, finalmente, quando consegue embarcar, sentar perto de alguém com problema de flatulência é um azar sem tamanho.
Quanto a cidade, é tudo o que me falaram de mal somado a muito de bom, o que as pessoas não costumam comentar. Têm barzinho legal e gente bacana aos montes. Tem roupa barata, calçado barato, acessórios baratos, perfumes baratos, eletronicos baratos e...ó o rapa. Tem gente comendo milho, abacaxi e yakisoba na rua. Mas ninguém fica reparando nem fazendo cara de nojo.
Para quem saiu pra ver arte como eu, o lugar é o paraíso. Tem Portinaris, Tarsilas, Toulouse-Lautrecs e até o Palácio de Versailles disponíveis à preços baixos, com desconto para estudantes. Tem peças de teatro pra escolher conforme o humor e o bolso. Não se respira só poluição mas também arte: no metrô, nas calçadas e em todo lugar.
Sem qualquer pretenção de repouso, cansei o corpo para aliviar a mente. Assim que voltei ao trabalho, senti um alívio por saber que um único ônibus me levaria ao destino em menos de uma hora. Mas deu um certo desespero. Percebi que fazer programas como o de entrar na "casa" de Clarice Lispector (no Museu da Língua Portuguesa) e futricar em suas gavetas para ler desde o original de Água Viva, com correções à caneta, até os rabiscos e bilhetes do filho, recados de geladeira, só quando eu voltar lá ou ir para um lugar menos bucólico do que a Pérola das Colônias. Enquanto isso, me contento com a Festa da Uva. Um brinde! Com vinho, salame, queijo e polenta.
terça-feira, 29 de maio de 2007
província féxion ique

Estavam lá centenas de pessoas amontoadas na fila que dava acesso (ou nem tanto) às cadeiras para assistir ao último desfile do Iguatemi Serra Fashion. Para quem não sabe, o evento é a semana da moda da Pérola das Colônias. Entre empurrões, cotoveladas e um-passinho-pra-frente-faz-favor, lá estava eu também, garantindo (ou nem tanto) meu lugar na fila.
Eu cheguei para o segundo desfile e a confusão estava armada: seguranças se desdobrando para despachar todo aquele povo que assistiu ao primeiro desfile, serviçais limpando o chão, as cadeiras e a passarela, técnicos verificando luz, som, cenário... Uma multidão liberando o espaço e outra, enfurecida, querendo entrar. Tudo muito desorganizado. E eu, até então, estava paciente com a maioria daquela gente que foi lá para qualquer coisa, menos para ver moda. Uns foram mostrar a roupa nova, outros para fazer um clique para a coluna social, alguns para poder usar modelitos com os quais nunca tiveram coragem de sair na rua e muitas para ver o Szafir desfilar. Enquanto isso, eu relaxava fazendo yoga para suportar as aberrações.
Eis que surgem duas representantes de peso da Caxias provinciana. As duas espaçosas senhoras fizeram escova nos cabelos, passaram massa-corrida-tapa-crateras na cara, colocaram acessórios multicoloridos e vestiram os seus inseparáveis casacos de pele sintética, tigrados, claro. Destaque para os óculos-do-arco-da-velha, tipo ambervision.
Já estava quase na hora de abrirem as porteiras e liberarem a boiada quando as duas furaram a fila. Podres de chique. Uma na minha frente, outra atrás. Com aquele arsenal todo de balangandãs que usavam, me senti o próprio Menino Jesus, sob a árvore de natal. Felinas que eram, foram vagarosamente se esfregando como gatas velhas e “conquistando” seu espaço. E pareciam ser muito mais donas de um lugar na fila do que eu, que já tinha criado raízes nos calcanhares.
Eu, o cara mais pacífico do mundo, sofri para engolir. Mastiguei, mastiguei...Remoí.Formei uma bola de pele sintética, base, pó e laquê na minha garganta. “Inspire pelo nariz, solte o ar pela boca, inspire pelo nariz...” Eu tentava de tudo para não ligar para o IBAMA e pedir a captura das leopardas.
Já tinha passado da hora de abrirem a portaria e as duas começaram a reclamar, sugerir aos seguranças maneiras adequadas para organizar a fila e bolar estratégias para entrar logo e conseguir o melhor lugar. Foi aí que uma delas, a que estava atrás de mim, teve uma grande idéia. Se achando a própria Coco Channel, acenando com a mão e balançando as pulseiras, gritou para a amiga. “Faz assim ó: mostra teu ingresso pro segurança que aí eu acho que a gente entra antes.” Essa foi a gota d'água, porque todos que estavam na fila tinham um convite igual ao dela. A fila inteira olhou pra ela com cara de: “enfia esse teu ingresso...”.
Não, eu não tive nenhuma parada cardíaca. Mas isso foi porque fiquei orando para todos os santos da causa. “Valei-me Santa Glória Kalil, intercessora da elegância e das boas maneiras e São Francisco de Assis, protetor dos animais”.
Eu cheguei para o segundo desfile e a confusão estava armada: seguranças se desdobrando para despachar todo aquele povo que assistiu ao primeiro desfile, serviçais limpando o chão, as cadeiras e a passarela, técnicos verificando luz, som, cenário... Uma multidão liberando o espaço e outra, enfurecida, querendo entrar. Tudo muito desorganizado. E eu, até então, estava paciente com a maioria daquela gente que foi lá para qualquer coisa, menos para ver moda. Uns foram mostrar a roupa nova, outros para fazer um clique para a coluna social, alguns para poder usar modelitos com os quais nunca tiveram coragem de sair na rua e muitas para ver o Szafir desfilar. Enquanto isso, eu relaxava fazendo yoga para suportar as aberrações.
Eis que surgem duas representantes de peso da Caxias provinciana. As duas espaçosas senhoras fizeram escova nos cabelos, passaram massa-corrida-tapa-crateras na cara, colocaram acessórios multicoloridos e vestiram os seus inseparáveis casacos de pele sintética, tigrados, claro. Destaque para os óculos-do-arco-da-velha, tipo ambervision.
Já estava quase na hora de abrirem as porteiras e liberarem a boiada quando as duas furaram a fila. Podres de chique. Uma na minha frente, outra atrás. Com aquele arsenal todo de balangandãs que usavam, me senti o próprio Menino Jesus, sob a árvore de natal. Felinas que eram, foram vagarosamente se esfregando como gatas velhas e “conquistando” seu espaço. E pareciam ser muito mais donas de um lugar na fila do que eu, que já tinha criado raízes nos calcanhares.
Eu, o cara mais pacífico do mundo, sofri para engolir. Mastiguei, mastiguei...Remoí.Formei uma bola de pele sintética, base, pó e laquê na minha garganta. “Inspire pelo nariz, solte o ar pela boca, inspire pelo nariz...” Eu tentava de tudo para não ligar para o IBAMA e pedir a captura das leopardas.
Já tinha passado da hora de abrirem a portaria e as duas começaram a reclamar, sugerir aos seguranças maneiras adequadas para organizar a fila e bolar estratégias para entrar logo e conseguir o melhor lugar. Foi aí que uma delas, a que estava atrás de mim, teve uma grande idéia. Se achando a própria Coco Channel, acenando com a mão e balançando as pulseiras, gritou para a amiga. “Faz assim ó: mostra teu ingresso pro segurança que aí eu acho que a gente entra antes.” Essa foi a gota d'água, porque todos que estavam na fila tinham um convite igual ao dela. A fila inteira olhou pra ela com cara de: “enfia esse teu ingresso...”.
Não, eu não tive nenhuma parada cardíaca. Mas isso foi porque fiquei orando para todos os santos da causa. “Valei-me Santa Glória Kalil, intercessora da elegância e das boas maneiras e São Francisco de Assis, protetor dos animais”.
terça-feira, 22 de maio de 2007
causa perdida

“Ah, aquele que morreu!?” Ela disse morreu, assim. Fria. “Não. Ele não morreu”. Retruquei com toda a certeza, como se a morte não combinasse com a pessoa referida. E não combinava mesmo. Morte é para quem sofre, para quem tá doente, hospitalizado, moribundo Nas últimas. “Não pode ser. Estamos falando de pessoas diferentes. Definitivamente ele está vivo.” Mas ela continuou firme, sem franzir a testa. Sem nenhuma cerimônia que a morte merece, sem nenhuma tensão na voz. “Morreu sim. Foi assassinado”. Aí sim, tive a certeza do engano. Realmente falávamos de pessoas distintas. Se a morte não se ajustava à ele, muito mais estranha ficava em forma de assassinato.
Ora, intelectuais, tenistas, pacíficos, advogados e polidos não morrem assim, baleados por caseiros de chácara. Ela abriu uma pasta no computador. A pasta de fotos da minha despedida, em dezembro de 2005. “Peraí. Vou te mostrar a foto dele”. Eu já não tinha mais tanta certeza da imortalidade dos pacatos. “É esse aqui ó”. Ela pôs o dedo na tela. E era ele mesmo. Politicamente correto, com a camisa bege, por dentro das calças.
Depois, trouxeram-me o jornal. Dizia que, durante a discussão, foi ele quem apontou a arma. O caseiro a tirou das suas mãos e disparou, “acidentalmente”, dois tiros à queima roupa. Ele também não combinava com armas, nem com violência. Com a discussão sim, mas em outro nível. Advogado, recorria à qualquer sentença do dia-a-dia. Sempre disposto a discutir durante horas sobre mínimos detalhes. Sempre no tom de voz calmo de quem domina a situação, recolhe provas contundentes e tem a confiança da causa ganha.
Era um amigo. Desses que a gente acaba perdendo o contato, mas fica feliz ao encontrá-lo na fila do banco.
O jornal era velho, da semana anterior. Eu não tinha lido e não fui ao velório. Também não faria diferença alguma. Vê-lo numa cena incabível, com a camisa certinha, que tem pinos de metal para prender o colarinho. Tão inaceitável quanto a foto do corpo no jornal, atirado na grama, sob o sol de domingo. Não havia consolo que eu pudesse dar a alguém. Eu queria mesmo era falar com ele. Falar da minha indignação. “Cara, tu vacilou. Dessa vez é causa perdida. Não dá nem pra recorrer.”
quinta-feira, 17 de maio de 2007
o lago de narciso
Quando me falares, olharei para o teu queixo. Porque teus olhos são para mim, como o lago de Narciso. Me envolvem, me abduzem, me seduzem. Roubam minha consciência, refletem minha imagem e esboçam minha alma num falso retrato de perfeição: mais bela e mais clara.Tão inocentes e tão perversos, me enredam numa cena irreal. Me intimam a banhar-me eternamente num cristalino mar de mim. Ilusionistas, inventam minha face aventureira, forjam minha coragem e me fazem inconsequente. Olhos furtivos. Me encantam com a miragem daquilo que não sou. Traiçoeiros, me lavam num sorriso terno. Me prendem, inebriam minhas verdades e me induzem a desejar com fervor aquilo que me corrompe.
Teus olhos, lago de Narciso, me convidam ao mergulho da morte.
quarta-feira, 16 de maio de 2007
o espetáculo das sutilezas

O melhor lugar do teatro é a primeira fila. Alí, onde a arte se despe, dá pra ver a poeira que sobe a cada pisada no palco. São partículas mágicas da cena. Vermelhas, douradas, azuis. Bailarinas cintilantes, sob a luz dos holofotes.
Só nas primeiras fileiras se enxerga os detalhes que dão realidade à atuação. Bem na frente, se vê as pioneiras gotas de suor brotarem cristalinas e fazerem das testas, palcos. Com a concentração que a arte merece, se observa, em câmera lenta, a trajetória imprecisa que a saliva descreve das bocas ao chão, nos gritos que marcam o texto. E a boca do palco te beija. E te dá intimidade suficiente para fotografar na memória as veias que saltam dos corpos, a respiração que quer expulsar os pulmões do peito, a pulsação nas têmporas, o suspiro, a pausa. Para primeira fila, o palco não tem paredes, nem cortinas, nem teto. É um chão livre que te acolhe e te abraça. Alí, sem nenhum esforço sobrenatural, é possível fazer a platéia sumir, e tomar a peça como propriedade particular.
Só nas primeiras fileiras se enxerga os detalhes que dão realidade à atuação. Bem na frente, se vê as pioneiras gotas de suor brotarem cristalinas e fazerem das testas, palcos. Com a concentração que a arte merece, se observa, em câmera lenta, a trajetória imprecisa que a saliva descreve das bocas ao chão, nos gritos que marcam o texto. E a boca do palco te beija. E te dá intimidade suficiente para fotografar na memória as veias que saltam dos corpos, a respiração que quer expulsar os pulmões do peito, a pulsação nas têmporas, o suspiro, a pausa. Para primeira fila, o palco não tem paredes, nem cortinas, nem teto. É um chão livre que te acolhe e te abraça. Alí, sem nenhum esforço sobrenatural, é possível fazer a platéia sumir, e tomar a peça como propriedade particular.
Gosto mesmo é do cheiro do palco. Uma aroma peculiar que mistura pó, plástico, perfume, madeira, pano e arte. Uma fragância entorpecente, sempre igual, sempre diferente.Sentar na primeira fileira é ter a vatagem de quem pagou para ver e foi brindado com o prazer de sentir.E ainda quando se referem ao melhor lugar para se ver tudo, dizem “assistir de camarote”. Mas eu sei que a cena não é feita para o camarote, à cadeira mais alta ou ao mezanino. A arte não costuma olhar para cima. O que ele gosta mesmo é de te ver de frente e de perto.A simplicidade das minúncias dá um show de improviso. E a sutileza, soberana como a própria arte, é um espetáculo paralelo.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
restos

quero de volta o tempo perdido
cada segundinho, de volta
que sejam guardados numa caixa forte,
onde o tempo não passa,
ou num bolso furado, que seja
não faço reciclagem
não descarto um só dia
quero as migalhas dos momentos perdidos
e os fragmentos de vida que um dia caíram
quero todos bem juntos,
amontoados nas conchas da mão
não faço faxina
guardarei quebrado, rasgado e sujo
quero todos os registros perdidos,
algo que prove minha existência
palavras, fotos, sorrisos e lágrimas
tudo colado, como num quadro dadaísta
não restauro nem guardo nada como relíquia
quero apenas ter algo, nem que seja para jogar fora