
Estavam lá centenas de pessoas amontoadas na fila que dava acesso (ou nem tanto) às cadeiras para assistir ao último desfile do Iguatemi Serra Fashion. Para quem não sabe, o evento é a semana da moda da Pérola das Colônias. Entre empurrões, cotoveladas e um-passinho-pra-frente-faz-favor, lá estava eu também, garantindo (ou nem tanto) meu lugar na fila.
Eu cheguei para o segundo desfile e a confusão estava armada: seguranças se desdobrando para despachar todo aquele povo que assistiu ao primeiro desfile, serviçais limpando o chão, as cadeiras e a passarela, técnicos verificando luz, som, cenário... Uma multidão liberando o espaço e outra, enfurecida, querendo entrar. Tudo muito desorganizado. E eu, até então, estava paciente com a maioria daquela gente que foi lá para qualquer coisa, menos para ver moda. Uns foram mostrar a roupa nova, outros para fazer um clique para a coluna social, alguns para poder usar modelitos com os quais nunca tiveram coragem de sair na rua e muitas para ver o Szafir desfilar. Enquanto isso, eu relaxava fazendo yoga para suportar as aberrações.
Eis que surgem duas representantes de peso da Caxias provinciana. As duas espaçosas senhoras fizeram escova nos cabelos, passaram massa-corrida-tapa-crateras na cara, colocaram acessórios multicoloridos e vestiram os seus inseparáveis casacos de pele sintética, tigrados, claro. Destaque para os óculos-do-arco-da-velha, tipo ambervision.
Já estava quase na hora de abrirem as porteiras e liberarem a boiada quando as duas furaram a fila. Podres de chique. Uma na minha frente, outra atrás. Com aquele arsenal todo de balangandãs que usavam, me senti o próprio Menino Jesus, sob a árvore de natal. Felinas que eram, foram vagarosamente se esfregando como gatas velhas e “conquistando” seu espaço. E pareciam ser muito mais donas de um lugar na fila do que eu, que já tinha criado raízes nos calcanhares.
Eu, o cara mais pacífico do mundo, sofri para engolir. Mastiguei, mastiguei...Remoí.Formei uma bola de pele sintética, base, pó e laquê na minha garganta. “Inspire pelo nariz, solte o ar pela boca, inspire pelo nariz...” Eu tentava de tudo para não ligar para o IBAMA e pedir a captura das leopardas.
Já tinha passado da hora de abrirem a portaria e as duas começaram a reclamar, sugerir aos seguranças maneiras adequadas para organizar a fila e bolar estratégias para entrar logo e conseguir o melhor lugar. Foi aí que uma delas, a que estava atrás de mim, teve uma grande idéia. Se achando a própria Coco Channel, acenando com a mão e balançando as pulseiras, gritou para a amiga. “Faz assim ó: mostra teu ingresso pro segurança que aí eu acho que a gente entra antes.” Essa foi a gota d'água, porque todos que estavam na fila tinham um convite igual ao dela. A fila inteira olhou pra ela com cara de: “enfia esse teu ingresso...”.
Não, eu não tive nenhuma parada cardíaca. Mas isso foi porque fiquei orando para todos os santos da causa. “Valei-me Santa Glória Kalil, intercessora da elegância e das boas maneiras e São Francisco de Assis, protetor dos animais”.
Eu cheguei para o segundo desfile e a confusão estava armada: seguranças se desdobrando para despachar todo aquele povo que assistiu ao primeiro desfile, serviçais limpando o chão, as cadeiras e a passarela, técnicos verificando luz, som, cenário... Uma multidão liberando o espaço e outra, enfurecida, querendo entrar. Tudo muito desorganizado. E eu, até então, estava paciente com a maioria daquela gente que foi lá para qualquer coisa, menos para ver moda. Uns foram mostrar a roupa nova, outros para fazer um clique para a coluna social, alguns para poder usar modelitos com os quais nunca tiveram coragem de sair na rua e muitas para ver o Szafir desfilar. Enquanto isso, eu relaxava fazendo yoga para suportar as aberrações.
Eis que surgem duas representantes de peso da Caxias provinciana. As duas espaçosas senhoras fizeram escova nos cabelos, passaram massa-corrida-tapa-crateras na cara, colocaram acessórios multicoloridos e vestiram os seus inseparáveis casacos de pele sintética, tigrados, claro. Destaque para os óculos-do-arco-da-velha, tipo ambervision.
Já estava quase na hora de abrirem as porteiras e liberarem a boiada quando as duas furaram a fila. Podres de chique. Uma na minha frente, outra atrás. Com aquele arsenal todo de balangandãs que usavam, me senti o próprio Menino Jesus, sob a árvore de natal. Felinas que eram, foram vagarosamente se esfregando como gatas velhas e “conquistando” seu espaço. E pareciam ser muito mais donas de um lugar na fila do que eu, que já tinha criado raízes nos calcanhares.
Eu, o cara mais pacífico do mundo, sofri para engolir. Mastiguei, mastiguei...Remoí.Formei uma bola de pele sintética, base, pó e laquê na minha garganta. “Inspire pelo nariz, solte o ar pela boca, inspire pelo nariz...” Eu tentava de tudo para não ligar para o IBAMA e pedir a captura das leopardas.
Já tinha passado da hora de abrirem a portaria e as duas começaram a reclamar, sugerir aos seguranças maneiras adequadas para organizar a fila e bolar estratégias para entrar logo e conseguir o melhor lugar. Foi aí que uma delas, a que estava atrás de mim, teve uma grande idéia. Se achando a própria Coco Channel, acenando com a mão e balançando as pulseiras, gritou para a amiga. “Faz assim ó: mostra teu ingresso pro segurança que aí eu acho que a gente entra antes.” Essa foi a gota d'água, porque todos que estavam na fila tinham um convite igual ao dela. A fila inteira olhou pra ela com cara de: “enfia esse teu ingresso...”.
Não, eu não tive nenhuma parada cardíaca. Mas isso foi porque fiquei orando para todos os santos da causa. “Valei-me Santa Glória Kalil, intercessora da elegância e das boas maneiras e São Francisco de Assis, protetor dos animais”.

Quando me falares, olharei para o teu queixo. Porque teus olhos são para mim, como o lago de Narciso. Me envolvem, me abduzem, me seduzem. Roubam minha consciência, refletem minha imagem e esboçam minha alma num falso retrato de perfeição: mais bela e mais clara.
