terça-feira, 29 de maio de 2007

província féxion ique


Estavam lá centenas de pessoas amontoadas na fila que dava acesso (ou nem tanto) às cadeiras para assistir ao último desfile do Iguatemi Serra Fashion. Para quem não sabe, o evento é a semana da moda da Pérola das Colônias. Entre empurrões, cotoveladas e um-passinho-pra-frente-faz-favor, lá estava eu também, garantindo (ou nem tanto) meu lugar na fila.
Eu cheguei para o segundo desfile e a confusão estava armada: seguranças se desdobrando para despachar todo aquele povo que assistiu ao primeiro desfile, serviçais limpando o chão, as cadeiras e a passarela, técnicos verificando luz, som, cenário... Uma multidão liberando o espaço e outra, enfurecida, querendo entrar. Tudo muito desorganizado. E eu, até então, estava paciente com a maioria daquela gente que foi lá para qualquer coisa, menos para ver moda. Uns foram mostrar a roupa nova, outros para fazer um clique para a coluna social, alguns para poder usar modelitos com os quais nunca tiveram coragem de sair na rua e muitas para ver o Szafir desfilar. Enquanto isso, eu relaxava fazendo yoga para suportar as aberrações.
Eis que surgem duas representantes de peso da Caxias provinciana. As duas espaçosas senhoras fizeram escova nos cabelos, passaram massa-corrida-tapa-crateras na cara, colocaram acessórios multicoloridos e vestiram os seus inseparáveis casacos de pele sintética, tigrados, claro. Destaque para os óculos-do-arco-da-velha, tipo ambervision.
Já estava quase na hora de abrirem as porteiras e liberarem a boiada quando as duas furaram a fila. Podres de chique. Uma na minha frente, outra atrás. Com aquele arsenal todo de balangandãs que usavam, me senti o próprio Menino Jesus, sob a árvore de natal. Felinas que eram, foram vagarosamente se esfregando como gatas velhas e “conquistando” seu espaço. E pareciam ser muito mais donas de um lugar na fila do que eu, que já tinha criado raízes nos calcanhares.
Eu, o cara mais pacífico do mundo, sofri para engolir. Mastiguei, mastiguei...Remoí.Formei uma bola de pele sintética, base, pó e laquê na minha garganta. “Inspire pelo nariz, solte o ar pela boca, inspire pelo nariz...” Eu tentava de tudo para não ligar para o IBAMA e pedir a captura das leopardas.
Já tinha passado da hora de abrirem a portaria e as duas começaram a reclamar, sugerir aos seguranças maneiras adequadas para organizar a fila e bolar estratégias para entrar logo e conseguir o melhor lugar. Foi aí que uma delas, a que estava atrás de mim, teve uma grande idéia. Se achando a própria Coco Channel, acenando com a mão e balançando as pulseiras, gritou para a amiga. “Faz assim ó: mostra teu ingresso pro segurança que aí eu acho que a gente entra antes.” Essa foi a gota d'água, porque todos que estavam na fila tinham um convite igual ao dela. A fila inteira olhou pra ela com cara de: “enfia esse teu ingresso...”.
Não, eu não tive nenhuma parada cardíaca. Mas isso foi porque fiquei orando para todos os santos da causa. “Valei-me Santa Glória Kalil, intercessora da elegância e das boas maneiras e São Francisco de Assis, protetor dos animais”.

terça-feira, 22 de maio de 2007

causa perdida


“Ah, aquele que morreu!?” Ela disse morreu, assim. Fria. “Não. Ele não morreu”. Retruquei com toda a certeza, como se a morte não combinasse com a pessoa referida. E não combinava mesmo. Morte é para quem sofre, para quem tá doente, hospitalizado, moribundo Nas últimas. “Não pode ser. Estamos falando de pessoas diferentes. Definitivamente ele está vivo.” Mas ela continuou firme, sem franzir a testa. Sem nenhuma cerimônia que a morte merece, sem nenhuma tensão na voz. “Morreu sim. Foi assassinado”. Aí sim, tive a certeza do engano. Realmente falávamos de pessoas distintas. Se a morte não se ajustava à ele, muito mais estranha ficava em forma de assassinato.
Ora, intelectuais, tenistas, pacíficos, advogados e polidos não morrem assim, baleados por caseiros de chácara. Ela abriu uma pasta no computador. A pasta de fotos da minha despedida, em dezembro de 2005. “Peraí. Vou te mostrar a foto dele”. Eu já não tinha mais tanta certeza da imortalidade dos pacatos. “É esse aqui ó”. Ela pôs o dedo na tela. E era ele mesmo. Politicamente correto, com a camisa bege, por dentro das calças.
Depois, trouxeram-me o jornal. Dizia que, durante a discussão, foi ele quem apontou a arma. O caseiro a tirou das suas mãos e disparou, “acidentalmente”, dois tiros à queima roupa. Ele também não combinava com armas, nem com violência. Com a discussão sim, mas em outro nível. Advogado, recorria à qualquer sentença do dia-a-dia. Sempre disposto a discutir durante horas sobre mínimos detalhes. Sempre no tom de voz calmo de quem domina a situação, recolhe provas contundentes e tem a confiança da causa ganha.
Era um amigo. Desses que a gente acaba perdendo o contato, mas fica feliz ao encontrá-lo na fila do banco.
O jornal era velho, da semana anterior. Eu não tinha lido e não fui ao velório. Também não faria diferença alguma. Vê-lo numa cena incabível, com a camisa certinha, que tem pinos de metal para prender o colarinho. Tão inaceitável quanto a foto do corpo no jornal, atirado na grama, sob o sol de domingo. Não havia consolo que eu pudesse dar a alguém. Eu queria mesmo era falar com ele. Falar da minha indignação. “Cara, tu vacilou. Dessa vez é causa perdida. Não dá nem pra recorrer.”

quinta-feira, 17 de maio de 2007

o lago de narciso

Quando me falares, olharei para o teu queixo. Porque teus olhos são para mim, como o lago de Narciso. Me envolvem, me abduzem, me seduzem. Roubam minha consciência, refletem minha imagem e esboçam minha alma num falso retrato de perfeição: mais bela e mais clara.
Tão inocentes e tão perversos, me enredam numa cena irreal. Me intimam a banhar-me eternamente num cristalino mar de mim. Ilusionistas, inventam minha face aventureira, forjam minha coragem e me fazem inconsequente. Olhos furtivos. Me encantam com a miragem daquilo que não sou. Traiçoeiros, me lavam num sorriso terno. Me prendem, inebriam minhas verdades e me induzem a desejar com fervor aquilo que me corrompe.
Teus olhos, lago de Narciso, me convidam ao mergulho da morte.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

o espetáculo das sutilezas


O melhor lugar do teatro é a primeira fila. Alí, onde a arte se despe, dá pra ver a poeira que sobe a cada pisada no palco. São partículas mágicas da cena. Vermelhas, douradas, azuis. Bailarinas cintilantes, sob a luz dos holofotes.
Só nas primeiras fileiras se enxerga os detalhes que dão realidade à atuação. Bem na frente, se vê as pioneiras gotas de suor brotarem cristalinas e fazerem das testas, palcos. Com a concentração que a arte merece, se observa, em câmera lenta, a trajetória imprecisa que a saliva descreve das bocas ao chão, nos gritos que marcam o texto. E a boca do palco te beija. E te dá intimidade suficiente para fotografar na memória as veias que saltam dos corpos, a respiração que quer expulsar os pulmões do peito, a pulsação nas têmporas, o suspiro, a pausa.
Para primeira fila, o palco não tem paredes, nem cortinas, nem teto. É um chão livre que te acolhe e te abraça. Alí, sem nenhum esforço sobrenatural, é possível fazer a platéia sumir, e tomar a peça como propriedade particular.
Gosto mesmo é do cheiro do palco. Uma aroma peculiar que mistura pó, plástico, perfume, madeira, pano e arte. Uma fragância entorpecente, sempre igual, sempre diferente.Sentar na primeira fileira é ter a vatagem de quem pagou para ver e foi brindado com o prazer de sentir.E ainda quando se referem ao melhor lugar para se ver tudo, dizem “assistir de camarote”. Mas eu sei que a cena não é feita para o camarote, à cadeira mais alta ou ao mezanino. A arte não costuma olhar para cima. O que ele gosta mesmo é de te ver de frente e de perto.A simplicidade das minúncias dá um show de improviso. E a sutileza, soberana como a própria arte, é um espetáculo paralelo.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

restos


quero de volta o tempo perdido

cada segundinho, de volta

que sejam guardados numa caixa forte,

onde o tempo não passa,

ou num bolso furado, que seja


não faço reciclagem

não descarto um só dia


quero as migalhas dos momentos perdidos

e os fragmentos de vida que um dia caíram

quero todos bem juntos,

amontoados nas conchas da mão


não faço faxina

guardarei quebrado, rasgado e sujo


quero todos os registros perdidos,

algo que prove minha existência

palavras, fotos, sorrisos e lágrimas

tudo colado, como num quadro dadaísta


não restauro nem guardo nada como relíquia

quero apenas ter algo, nem que seja para jogar fora