quarta-feira, 16 de maio de 2007

o espetáculo das sutilezas


O melhor lugar do teatro é a primeira fila. Alí, onde a arte se despe, dá pra ver a poeira que sobe a cada pisada no palco. São partículas mágicas da cena. Vermelhas, douradas, azuis. Bailarinas cintilantes, sob a luz dos holofotes.
Só nas primeiras fileiras se enxerga os detalhes que dão realidade à atuação. Bem na frente, se vê as pioneiras gotas de suor brotarem cristalinas e fazerem das testas, palcos. Com a concentração que a arte merece, se observa, em câmera lenta, a trajetória imprecisa que a saliva descreve das bocas ao chão, nos gritos que marcam o texto. E a boca do palco te beija. E te dá intimidade suficiente para fotografar na memória as veias que saltam dos corpos, a respiração que quer expulsar os pulmões do peito, a pulsação nas têmporas, o suspiro, a pausa.
Para primeira fila, o palco não tem paredes, nem cortinas, nem teto. É um chão livre que te acolhe e te abraça. Alí, sem nenhum esforço sobrenatural, é possível fazer a platéia sumir, e tomar a peça como propriedade particular.
Gosto mesmo é do cheiro do palco. Uma aroma peculiar que mistura pó, plástico, perfume, madeira, pano e arte. Uma fragância entorpecente, sempre igual, sempre diferente.Sentar na primeira fileira é ter a vatagem de quem pagou para ver e foi brindado com o prazer de sentir.E ainda quando se referem ao melhor lugar para se ver tudo, dizem “assistir de camarote”. Mas eu sei que a cena não é feita para o camarote, à cadeira mais alta ou ao mezanino. A arte não costuma olhar para cima. O que ele gosta mesmo é de te ver de frente e de perto.A simplicidade das minúncias dá um show de improviso. E a sutileza, soberana como a própria arte, é um espetáculo paralelo.

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