quarta-feira, 8 de agosto de 2007

midiologia comparada

Ele tinha uma aparência àspera. No rosto, uma expresão plastificada. Uma dicção tão perfeita quanto dispensável, porque os lábios descreviam tão bem os movimentos exigidos pelas palavras que, sem emitir qualquer som, ele seria compreendido.
Era frio, sombrio, arrogante e debochado. Em pouco tempo, como num discurso de posse, decretou o fim da naturalidade das relações humanas. Em outras palavras, dise que o homem só se relaciona por interese, é vil e falso. Disse ainda que o bem-estar das pessoas depende, definitivamente, do mais reles reconhecimento dos indivíduos de poder (clase na qual ele parecia Deus).
Os dez amedontrados alunos de Midiologia Comparada, observavam encolhidos, pasmos de se verem subjulgados à uma supremacia rude e perturbada. Quanto tentou ser engraçado, foi para debochar dos menores que sí. Ao arrancar sorrisos confusos de "esse cara é real?", debochou novamente: "Esses sorrisos provam que estou conquistando vocês. É a minha capacidade apurada de persuasão. Mas isso - e deu ênfase - é pura técnica". Aí, nós, os mendigos de afeto dos poderosos, murchamos em nossas classes.
Com tantos absurdos, não sei como pude somente assimilar seus equívocos sem sentir asco, medo ou pena. Minha inércia em relação aos seus delírios não me tornou baixo como ele propunha, não me fez admirá-lo nem odiálo. Durante todo o tempo, fiz comparações, como a própria cadeira propõe. Confrontei a sua fisionomia com a do patinador Marcel Stürmer e a espetacularização da sua insanidade com a de Nelson Rodrigues. Aos poucos, me perdi distraído com o som dos "s" que ele pronunciava. Parecia uma batida de pratos da bateria, quando anuncia o fim da música.

Nenhum comentário: