terça-feira, 22 de maio de 2007

causa perdida


“Ah, aquele que morreu!?” Ela disse morreu, assim. Fria. “Não. Ele não morreu”. Retruquei com toda a certeza, como se a morte não combinasse com a pessoa referida. E não combinava mesmo. Morte é para quem sofre, para quem tá doente, hospitalizado, moribundo Nas últimas. “Não pode ser. Estamos falando de pessoas diferentes. Definitivamente ele está vivo.” Mas ela continuou firme, sem franzir a testa. Sem nenhuma cerimônia que a morte merece, sem nenhuma tensão na voz. “Morreu sim. Foi assassinado”. Aí sim, tive a certeza do engano. Realmente falávamos de pessoas distintas. Se a morte não se ajustava à ele, muito mais estranha ficava em forma de assassinato.
Ora, intelectuais, tenistas, pacíficos, advogados e polidos não morrem assim, baleados por caseiros de chácara. Ela abriu uma pasta no computador. A pasta de fotos da minha despedida, em dezembro de 2005. “Peraí. Vou te mostrar a foto dele”. Eu já não tinha mais tanta certeza da imortalidade dos pacatos. “É esse aqui ó”. Ela pôs o dedo na tela. E era ele mesmo. Politicamente correto, com a camisa bege, por dentro das calças.
Depois, trouxeram-me o jornal. Dizia que, durante a discussão, foi ele quem apontou a arma. O caseiro a tirou das suas mãos e disparou, “acidentalmente”, dois tiros à queima roupa. Ele também não combinava com armas, nem com violência. Com a discussão sim, mas em outro nível. Advogado, recorria à qualquer sentença do dia-a-dia. Sempre disposto a discutir durante horas sobre mínimos detalhes. Sempre no tom de voz calmo de quem domina a situação, recolhe provas contundentes e tem a confiança da causa ganha.
Era um amigo. Desses que a gente acaba perdendo o contato, mas fica feliz ao encontrá-lo na fila do banco.
O jornal era velho, da semana anterior. Eu não tinha lido e não fui ao velório. Também não faria diferença alguma. Vê-lo numa cena incabível, com a camisa certinha, que tem pinos de metal para prender o colarinho. Tão inaceitável quanto a foto do corpo no jornal, atirado na grama, sob o sol de domingo. Não havia consolo que eu pudesse dar a alguém. Eu queria mesmo era falar com ele. Falar da minha indignação. “Cara, tu vacilou. Dessa vez é causa perdida. Não dá nem pra recorrer.”

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi, reli este texto e me lembrei do Elvis (ñ sei se vou me acostmar com esse nome). Esse seu amigo que não via a bastante tempo, que de maneira cruel nos deixou. Vamos fazer com que o nascimeto do Elvis, não se de em vão, e que a vontade de encontrar nossos queridos amigos permaneça sempre e mais do que isso que se torne presente.

Anônimo disse...

Marcelo, adorei o texto, mesmo mesmo!
Ótima a descrição. Se eu não estivesse presente, consegueria ao ler o teu texto, formar na minha cabeça um filmezinho da cena bem direitinho como foi!

Um beijãooo